wonderland

Sep 19

XLVI

Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra.

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.


(Hilda Hilst, em Cantares de perda e predileção, 1983)


  1. anamatopeia reblogged this from puellla
  2. sourandsweet reblogged this from tecnicocacolor
  3. tecnicocacolor reblogged this from puellla
  4. puellla posted this