Ovídio e Avon
Todo mundo deveria ter um exemplarzinho de A arte de amar, do Ovídio (“se houver algum homem comum a quem a arte do amor seja desconhecida, que ele leia este poema e que, conhecendo-a através de sua leitura, ame”), para aprender como ser mais amável, ou para encontrar inspiração para o que fazer da vida depois que seu amor te deixar - e levar sua identidade (“Tanto quanto o plátano ama o vinho, o álamo a água, a planta aquática um lugar lodoso, Vênus ama a ociosidade. Você, que deseja ver findar seu amor, o amor foge da atividade; leve uma vida ativa e ficará tranquilo”).
(Toulouse-Lautrec, “The Kiss”)
Na ediçãozinha que tenho, ele faz papel, além de consultor sentimental, de consultor de beleza: no capítulo “Os produtos de beleza para o rosto da mulher”, ensina - depois de uma breve dissertação sobre o tema beleza e virtude - como fazer cosméticos. Veja:
[…] Que sua primeira preocupação, jovens, seja a de zelar pelo seu caráter: as qualidades da alma se somam aos atrativos do rosto. O amor baseado no caráter é durável; a beleza será devastada pela idade e rugas sulcarão seu rosto sedutor. Virá um tempo em que vocês deplorarão sua imagem no espelho e esse desgosto lhes dará novas rugas. A virtude basta, dura toda a vida, tão longa ela seja, e alimenta o amor enquanto ela própria sobrevive.
…Então, quando o sono tiver relaxado seus membros delicados, como fazer brilhar a brancura de sua pele? Peguem a cevada que os cultivadores líbios enviam através do mar. Retirem sua palha e suas cascas. Acrescentem igual quantidade de órobo diluído em dez ovos; que o peso dessa cevada descascada seja igual a duas libras. Quando essa mistura tiver secado ao vento, coloquem-na numa mó de pedra rugosa, para ser pulverizada por uma égua lenta. Triturem também o chifre vivo do cervo que é morto no começo do ano, acrescentando um sexto de libra dessa mistura. Em seguida, quando tudo misturado formar uma farinha bem fina, passem imediatamente numa peneira bem fina. Acrescentem doze bulbos de narciso descascados, amassados com mão vigorosa num pilão de mármore bem limpo, mais duas onças de goma com farinha de trigo da Toscana, e nove vezes a mesma quantidade de mel. Toda mulher que untar seu rosto com esse cosmético ficará com a pele mais brilhante, mais lisa do que seu espelho.
Parece até coisa de bruxaria, não? Preparar esse cosmético seria um sofrimento para mim, que não sei fazer nem bolo. Mas ele também dá dicas fáceis, como a última:
Conheci uma mulher que molhava papoulas na água fria, as amassava e esfregava nas faces, de pele tão delicada…
Gostei, um dia vou testar. Bem melhor e mais poética, essa ideia de passar papoulas úmidas amassadas no rosto. Mas, definitivamente, não era nada prático ser mulher no século 1a.C…. Um viva para a Avão.