wonderland

Jan 22

Quarta

Mais um da Anna Akhmátova.

Anna

QUARTA

Há três épocas para a lembrança.
A primeira é como o dia que passou.
A alma, sob sua cúpula, sente-se abençoada
e o corpo em sua sombra se compraz.
O riso ainda não cessou, as lágrimas escorrem,
a mancha de tinta na mesa ainda não se apagou -
e, como um selo no coração, repousa o beijo
de despedida, único, inesquecível…
Mas isso não dura muito…
Já não há mais cúpula no alto; apenas, em algum lugar,
num subúrbio distante, uma casinha solitária
onde, no inverno, faz frio e, no verão, calor,
onde há aranhas e o pó recobre tudo,
onde caem em pedaços as cartas inflamadas
e os retratos vão imperceptivelmente mudando;
ali, os outros vêm como se ao cemitério
e, ao voltar para casa, lavam-se com sabão,
expulsam uma fugidia lágrima
das pálpebras cansadas - e dão um pesado suspiro…
Mas o relógio ainda bate, as primaveras se sucedem
uma depois da outra, o céu rosado fica,
as cidades mudam de nome,
e já não há mais testemunhas do passado,
já não há mais com quem chorar, com quem lembrar.
Devagarzinho, abandonam-nos as sombras,
que já não invocamos mais
pois o seu retorno poderia assustar-nos.
E um dia, ao despertar, descobrimos ter esquecido
o caminho para ir a essa casinha solitária.
Sufocando de raiva e de vergonha,
corremos para lá, mas (como acontece nos sonhos)
tudo está mudado: os homens, as coisas, as paredes,
e ninguém mais nos reconhece - somos estranhos,
nem a nós mesmos encontramos lá… Meu Deus!
E é aí que cresce a amargura:
sabemos que já não há mais lugar
para esse passado nas fronteiras de nossa vida;
que, para nós, ele já é quase tão indiferente
quanto para o nosso vizinho de apartamento;
que os mortos, já nem os teríamos mais reconhecido;
que aqueles de quem Deus nos separou
passaram muitíssimo bem sem nós - e que, até mesmo,
do jeito que está, está tudo bem…

(Anna Akhmátova. 5/2/1945. Leningrado)


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